Arquitetura / Engenharia - Tecnologia, criatividade e inovaçãoConstrução Magazine - nº. 34 - novembro/dezembro 2009
A conjugação do vidro e de elementos metálicos em edifícios é, seguramente, um dos campos em que a tecnologia e a engenharia mais influenciaram o rumo da arquitectura moderna. Edifícios tão arrojados, como o da fábrica de brinquedos Steiff, construído em 1903 em Giengen, na Alemanha - com um sistema, sem precedentes, de uma dupla fachada contínua e com o pano exterior fixado pontualmente à estrutura - foram o prenúncio de novos métodos formais e construtivos.
A obra de Walter Gropius, Mies van der Rohe, Philip Johnson, Jean Prouvé e de tantos outros, inspirou gerações de arquitectos a construir edifícios transparentes, movidos pela idéia de minimizar a estrutura resistente, valorizando a transparência e perseguindo a sensação de leveza. Apesar da audácia e do carácter verdadeiramente inovador de alguns desses edifícios - cito como exemplo o edifício Crown Hall do Instituto de Tecnologia de IlIinois em Chicago (1956), o edifício Seagram em Nova lorque (1958) e o edifício da Nova Galeria Nacional de Berlim (1968) - nenhum deles tirou partido da capacidade resistente do vidro, já que os sistemas estruturais foram concebidos para que o vidro estivesse sujeito a níveis de tensão muito reduzidos [2].
Efectivamente, até bem recentemente, o vidro limitou-se a desempenhar o papel de barreira física entre o interior e o espaço envolvente. Só mais recentemente - à medida que se intensificou a investigação em torno desta matéria e que melhoraram os métodos de laminação e os tratamentos térmicos - a exploração da capacidade resistente do vidro e a sua utilização estrutural tornaram-se uma tentação irresistível para muitos arquitectos e engenheiros. Este conceito é, hoje em dia, encontrado nos chamados "pavilhões de vidro integralmente transparentes", em que o vidro desempenha o papel estrutural, capaz de garantir a estabilidade da estrutura. Um dos exemplos mais interessantes é o Pavilhão do museu do vidro em Rheinbach, na Alemanha (1999). Projectado pelos Arquitectos Jórg Hieber e Jürgen Marquardt e pelo Engenheiro "Ludwig 8: Weiler".
A propósito da sua ... ósito da sua experiência no projecto vidro da fachada das estufas do Museu da Ciência no Parque de La Villette em Paris o insigne engenheiro Peter Rice afirmou que "Tenho notado 00 longo dos anos que o uso mais eficaz dos materiais é, em geral, alcançado quando eles são explorados e utilizados pela primeira vez. Nesse caso o prajectista não se sente inibido pelo passado... em qualquer dessas estruturas, existe uma autenticidade genuína que vai directa ao ceme das características físicas do material e expressa-as de uma forma desinibida" [4]. A abordagem de Peter Rice à engenharia estrutural esteve muito além da visão tradicional e redutora do papel de um engenheiro civil em projectos desta natureza. Com o seu carácter inventivo contribuiu, de uma forma decisiva, para o projecto de edifícios verdadeiramente emblemáticos entre os quais se destacam o Centro Pompidou, em Paris, e o Lloyd's Bank, em Londres. Na sua obra é possível encontrar três aspectos recorrentes: a utilização inovadora dos materiais e dos tipos estruturais; a capacidade de estabelecer colaborações efectivas com outros criadores; e a capacidade de desafiar a indústria da construção a vencer as barreiras pré-estabelecidas.
É essa liberdade e sentido de descoberta que alicia a romper as barreiras e a encetar novos caminhos. E o interessante é que essa aventura mobiliza e exige a colaboração da indústria e de profissionais dos mais variados sectores, tais como arquitectos e engenheiros. Uma das principais conclusões de acção COST C 13 - "Glass & Interactive Building Envelopes" - foi a de que "os três mundos da arquitectura, da física das construções e da engenharia estrutural ainda estão muito longe de se considerarem suficientemente integrados. É, sem dúvida, necessário um maior esforço para alinhar esses três mundos numa entidade holística capaz de conceber fachadas e coberturas que estejam optimizadas em relação a esses três pontos de vista".
Neste domínio o papel dos engenheiros deve ser inovar para apoiar a criatividade dos arquitectos. Estes devem ser conscientes do dilema que constitui terem de usar princípios racionais sem, no entanto, comprometerem o potencial de idéias e conceitos emergentes que ainda não ganharam forma.
O congresso internacional "Structures and Architecture" que, de 21 a 23 de Julho de 2010, terá lugar em Guimarães, será uma óptima oportunidade de explorar os limites e as sinergias entre a arquitectura e a engenharia estrutural, entre a construção e a tecnologia e, finalmente, entre a inovação e a criatividade (www.icsa2010.com).
REFERÊNCIAS
[1] Fissabre A, Niethammer B. [2009], The Invention of Glazed Curtain Wall in 1903 - The Steiff Toy Factory, Proceedings af the Third International Congress on Construction History (Eds.: K..E. Kurrer, W. Lorenz, V. Wetzk], Cottbus,Alemanha, 595-602, 2009. [2] Cruz, P.J_S., Carvalho, P. e Lebet, J.P. [2009), Explorar os limites da conjugação do vidro e de elementos metálicos em edifícios, VII Congresso Nacional de Construção Metálica e Mista, 19 e 20 de Novembro, Lisboa. pp.I-31, 1-45. [3] http://www.workshop.archiv.de/marquardt/mar_quardt,glas1_ 900.jpg [4] Lin L, Danziger B. [200?), The Imaginative Engineer Peter Rice (1935-1992], Structure.AJoint Publication of NCSEA, CASE and SEI.
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Data da última atualização: 16/07/2010