Sistema ganha norma de montagemRevista Finestra - nº 59 - Out/Nov/Dez - 2009
Aplicado em paredes internas, forros e revestimentos, o sistema drywall - chapas de gesso acartonado fixadas em perfis de aço galvanizado - tem agora norma técnica sobre projeto e procedimentos executivos de montagem. Mais uma conquista tecnológica para um mercado que vem crescendo, mesmo em períodos de crise.
Com 150 milhões de metros quadrados já instalados, desde 1995, o drywall ganha terreno na construção civil brasileira. O consumo anual de chapas já se aproxima dos 30 milhões de metros quadrados e continua em expansão. Em 2007 e 2008, aumentou 25% ao ano e, em 2009, mesmo com a crise, deve crescer de 5% a 10%, segundo estimativas da Associação Brasileira dos Fabricantes de Chapas para Drywall. Mas não é apenas o consumo que aumenta. O respaldo tecnológico também vem conquistando espaço: a norma técnica de montagem dos sistemas drywall (NBR 15.758) foi homologada e publicada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) em 4 de setembro deste ano. A norma é desdobrada em três partes, cobrindo respectivamente paredes, forros e revestimentos.
No Brasil, o sistema drywall começou a ser utilizado na década de 1970
Conforme Carlos Roberto de Luca, consultor técnico da associação de drywall, as normas técnicas têm força de lei e, por isso, o mercado agora conta com um importante instrumento de orientação dos construtores para a execução de paredes, forros e revestimentos com essa tecnologia. "Desse modo, o uso dos componentes corretos e a obediência aos procedimentos passam a ser obrigatórios, garantindo os níveis de qualidade e desempenho desses sistemas, em benefício principalmente do consumidor final", destaca. De acordo com a entidade, além da NBR 15.758 (Diretrizes para montagem de paredes, forros e revestimentos em drywall), estão publicadas normas da ABNT (Requisitos mínimos e métodos de ensaio) para chapas de gesso para drywall e perfis estruturais de aço galvanizado. Estão em fase final de elaboração as normas de massas e fitas para tratamento de juntas, parafusos e acessórios. Todos os ensaios para validação dos critérios e parâmetros especificados nesses documentos foram e vêm sendo realizados pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (lPT).
DESEMPENHO Os ensaios específicos para os produtos estão contidos nas diversas normas, e os testes de desempenho são balizados pela NBR 15.575 (Desempenho de edifícios de até cinco pavimentos), incluindo impactos, cargas transmitidas por peças suspensas, solicitações originadas por portas, resistência ao fogo, isolação sonora etc. Destaca-se a importância do controle da camada de zinco (Z275) e da espessura da chapa (mínima de 0,50 milímetro) para os perfis para drywall. Outro aspecto fundamental é a resistência ao fogo dos sistemas de paredes que empregam chapas do tipo RF (resistentes ao fogo). As empresas introduziram mudanças no processo produtivo e estão realizando novos ensaios para definir a resistência ao fogo de seus sistemas.
As paredes drywall podem ser executadas em uma fase Mais avançada da obra e em prazo mais curto
No Brasil, o sistema drywall começou a ser utilizado na década de 1970, com a instalação da primeira fábrica da Gypsum do Nordeste, em Petrolina, PE. Mas durante muitos anos ele se dirigiu quase exclusivamente a forros, com pouco uso em paredes internas. Do ponto de vista do processo produtivo e da ampliação do uso do drywall, o grande marco ocorreu na década de 1990, quando três empresas européias decidiram construir suas unidades no país. Hoje atuam na área a Lafarge Gypsum (que comprou a Gypsum do Nordeste), a Placo do Brasil, em Mogi das Cruzes, SP. e a Knauf do Brasil, em Queimados, RJ. Há a previsão de instalação de uma quarta fábrica no Nordeste, com a participação do grupo nacional Trevo. Com a entrada dos fabricantes do sistema no país, ocorreu uma mudança na mentalidade da cadeia produtiva. "Como projetistas de vedações, orientamos os demais projetistas sobre as limitações e adequação do drywall junto a cada subsistema da obra, tais como arquitetura, estrutura, portas e janelas, instalações elétricas, hidráulicas e de ar condicionado e impermeabilização", afirma Marco Addor, sócio diretor da Addor & Associados, empresa especializada em consultoria de projetos e qualidade.
Os benefícios do drywall são muitos. Para quem projeta, possibilita ampla liberdade, permitindo a criação de layouts flexíveis (maior número de opções de planta), além de formas diferenciadas, como paredes curvas, recortes, nichos etc. Para quem investe e constrói, oferece rapidez de execução, limpeza (o volume de resíduos é muito baixo, cerca de 5% do peso dos componentes utilizados), leveza e, conseqüentemente, menor volume de carga transportada na obra. Para os profissionais do mercado imobiliário, permite obter maior número de opções de planta, atendendo a diferentes perfis de clientes. E, para o consumidor final, proporciona qualidade de acabamento, precisão dimensional, conforto acústico e térmico, facilidade de fixação de objetos e de execução de reformas e reparos. Em comparação com a alvenaria convencional. o drywall tem como diferença básica o fato de não poder ser utilizado como elemento estrutural. No entanto, apresenta rigidez, estabilidade e resistência mecânica equivalentes às dos sistemas tradicionais, o que deve ser consolidado com a publicação, em breve, da norma da ABNT relativa ao desempenho dos sistemas construtivos em geral.
CUSTO/BENEFÍCIOS Falar de custos das paredes de drywall em comparação com as de alvenaria requer um olhar abrangente. Cláudio Mitidieri, pesquisador do IPT e especialista em sistemas inovadores, explica que se forem tomados apenas os valores de paredes em reais por metro quadrado é bem provável que não haja vantagens do drywall em termos de custos. "As análises para qualquer sistema de construção têm de ser feitas de forma mais sistêmica, considerando a obra como um todo e os fatores que podem interferir no custo, tais como velocidade de execução, logística de apoio, interface com outros elementos construtivos, cronograma, cargas transmitidas à estrutura e às fundações, dentre outros", considera. Para ele, um aspecto importante a destacar é que deve haver um planejamento executivo pensando no drywall, diferente do que seria feito para a alvenaria. As paredes de drywall podem ser executadas em uma fase mais avançada da obra e em prazo mais curto, levando em conta alguns pré-requisitos, como tipo de vedação das aberturas de janelas e execução de contrapisos.
Carlos Roberto de Luca, consultor técnico da Associação Drywall, tem a mesma opinião. Para ele, a comparação em reais por metro quadrado não é utilizada como parâmetro. "Normalmente, o cálculo que se faz é o do custo total, uma vez que o uso de tecnologias de construção industrializada, como o drywall, tem impacto sobre numerosos fatores da obra", afirma. Ele explica que o drywall tem contribuído para a modernização da construção brasileira e para a diminuição dos custos globais das edificações. Segundo o engenheiro Aníbal Knijnik, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, somente a redução do peso das estruturas, em razão da leveza do drywall (25 a 40 kg/m2 contra 140 a 150 kg/m2 da alvenaria convencional), gera uma economia da ordem de 5%.
Como o sistema é de montagem pode receber materiais Absorventes Acústicos para melhorar o conforto ambiental no interior das edificações
Mas, segundo Mitidieri, uma obra que utiliza drywall deve ser compatível com a construção industrializada. As interfaces, principalmente com instalações prediais, precisam estar previstas ainda na fase de projeto para 'evitar improvisações na obr que possam prejudicar os custos e o desempenho do sistema. Além disso, é sempre importante definir o contexto da análise, recomenda Mitidieri. "Se forem edificações de pequeno porte, como casas e sobrados, provavelmente os sistemas convencionais ainda são mais competitivos, pois, em geral, as paredes nas quais se apóiam as lajes de forro ou de piso são estruturais", explica. Em edifícios de grande porte, com estruturas reticuladas e vedações externas já resolvidas - seja em alvenaria ou em painéis de concreto -, e em estruturas com grandes vãos livres, o drywall é bastante competitivo. "Isso se não for pensado somente como substituição do convencional, mas como um processo industrializado, concebido desde o projeto do edifício e com o planejamento adequado das etapas construtivas", reforça Mitidieri.
ADAPTAÇÃO AO SISTEMA Ainda não se pode dizer que a tecnologia é amplamente conhecida em todo o território nacional, porém, do ponto de vista tecnológico, o sistema construtivo está consolidado. "Considero ser fundamental. para seu avanço, o controle contínuo dos materiais, por meio de programas de qualidade, e uma forte ação dos fabricantes e instaladores na melhoria da capacitação da mão-de-obra. Atualmente, a execução é o grande gargalo para os sistemas drywall no Brasil. A publicação recente da norma técnica deve ajudar a reduzir os problemas nessa fase", pondera Mitidieri.
Para a Associação Drywall. o processo de consolidação é lento e ainda deve levar alguns anos para completar-se. Hoje, os sistemas são amplamente utilizados nos segmentos comercial e residencial de médio e alto padrões. "Pouco a pouco, o drywall também vem ganhando expressão na área de arquitetura e design de interiores. Em outras palavras, ele é razoavelmente conhecido e bem aceito no topo da pirâmide do mercado.
Há, portanto, muito espaço para crescimento em todos os níveis, desde o médio padrão até a base da pirâmide", calcula De Luca.
CONFORTO TERMOACÜSTICO No início da utilização do sistema drywall ocorreram reclamações de consumidores quanto ao isolamento acústico. Porém, segundo Marco Addor, o problema era de má execução ou especificação. "Agora, as construtoras que optam pelo sistema vêm adotando critérios adequados de desempenho, superiores ao nível mínimo exigido pela norma, e as reclamações acabaram", conta. Como o sistema é de montagem, um dos recursos para conseguir a performance desejada é adicionar materiais absorventes acústicos. "Com isso podemos obter paredes com nível muito superior ao das alvenarias convencionais. Usualmente o sistema de parede simples, de 95 milímetros, sem lã mineral interna, tem desempenho ligeiramente inferior ao de uma parede de blocos cerâmicos ou de concreto de nove centímetros, revestidas com dez milímetros de argamassa de cada lado. Mas se acrescentarmos lã mineral no interior da parede de gesso, ele se torna ligeiramente superior", explica.
TABELA DE FIXAÇÃO DE CARGAS · Para chapas de gesso, utilizar buchas basculantes ou de expansão com tronco duplo ou maior. · Espaçamento mínimo de 40 centímetros entre pontos de fixação. · Para buchas basculantes, empurrar o anel. quebrar as hastes e parafusar os objetos. · Para cargas superiores às citadas na tabela (suporte de TV, bancadas, lavatórios suspensos), prever reforços metálicos ou de madeira tratada, de acordo com as recomendações dos fabricantes de chapas de gesso. · Verifique precisamente o peso do material a ser fixado. · As informações sobre capacidade de cargas são referenciais, segundo a Associação Drywall, que aconselha a consulta do manual do fabricante do componente antes de sua utilização.
CONSOLIDAÇÃO TECNOLÓGICA Na década de 1990, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (lPT) desenvolveu uma atividade pioneira com os fabricantes de sistemas drywall, por meio de uma série de avaliações técnicas em seus laboratórios e nas obras, promovendo intercâmbio com instituições estrangeiras, particularmente com o Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB), da França. Segundo Cláudio Mitidieri, pesquisador do IPT, os primeiros trabalhos foram feitos para as três empresas européias que decidiram construir unidades no Brasil e considerou os produtos
importados. O resultado foi a emissão de três referências técnicas lPT para os sistemas de paredes internas. As referências técnicas são emitidas pelo instituto para caracterizar tecnologicamente produtos e sistemas inovadores, quando ainda não existe norma técnica nacional para eles.
"Depois, no início da produção no Brasil foram feitas adequações no sistema, por causa dos componentes disponíveis no mercado nacional, como as chapas de aço zincadas. Foi desenvolvido um trabalho de avaliação dessas novas paredes e produtos produzidos no país, chegando-se a mais três referências técnicas do IPT para os produtos", explica Mitidieri. Com a adequação dos perfis de aço no Brasil, passou-se a empregar chapas zincadas Z275, com espessura mínima de 0,50 milímetro. Como ela é menor que a original dos produtos importados (de 0,60 milímetro), houve necessidade na época de uma especificação de redução na altura limite das paredes. O IPT também participou ativamente do processo de normalização dos sistemas no Brasil, a partir da década de 2000.
COMPONENTES COM RIGOR DIMENSIONAL O sistema drywall incorpora conceitos de construção seca, sem utilização de argamassas, minimizando o uso de água e proporcionando uma obra mais limpa. Utiliza componentes de maior rigor dimensional. que se unem e possibilitam maior precisão e produtividade em comparação com a construção convencional (em alvenaria). Além disso, de acordo com Marco Addor, sócio diretor da Addor & Associados, por requerer planejamento de projeto e de produção, o sistema evita adaptações e improvisações no canteiro. Como é leve, pode ser montado e desmontado de acordo com a necessidade do cliente.
Addor informa que o isolamento acústico é proporcional ao peso dos componentes da parede; portanto, quanto mais massa (densidade) a parede tem, maior é o isolamento. "Para uma mesma espessura de parede, a de tijolinho tem melhor desempenho que a de blocos de concreto e cerâmica. Mas lembrando um outro conceito, o de absorção acústica, o preenchimento do vazio interno da parede de drywall com lã mineral consegue adicionar uma melhoria significativa, devido à absorção acústica que a lã proporciona", ele diz. Do ponto de vista do conforto térmico, Addor afirma que os sistemas são equivalentes, com leve vantagem quando se usa lã mineral no interior das paredes de drywall. "Nas regiões mais frias ou muito quentes, onde as faces das paredes externas transmitem muito a temperatura, é recomendável a utilização de uma contra parede, ou seja, uma parede com perfil e apenas uma camada de chapa de gesso e lã mineral, para se obter um bom isolamento térmico e, conseqüentemente, economia nos sistemas de ar condicionado ou calefação", acrescenta.
Para especificar corretamente deve-se analisar o padrão da edificação e o nível desejado de isolamento acústico preconizado pela norma, explica Addor. "Os erros mais comuns, muitas vezes, não são do sistema isoladamente, pois, apesar de uma especificação correta, é preciso fazer a análise dos outros subsistemas determinados pela arquitetura e estrutura, das instalações hidráulica, elétrica e de ar condicionado, entre outros, que podem prejudicar o desempenho acústico da parede de drywall", ele observa. Os exemplos mais comuns são erro de posicionamento das caixas elétricas, que geram "ralos" acústicos; falta de vedação adequada de portas e janelas; falta de vedação entre passagens de dutos de exaustão e ar condicionado; posicionamento inadequado de prumadas de esgoto e águas pluviais, entre outros. "São diversos erros e armadilhas que podem ocorrer se não houver uma análise conceitual e generalizada de todos os sistemas do empreendimento", conclui Addor.
Quanto à resistência ao fogo, existem placas especiais (RF, na cor rosa) com características muito boas. Utilizadas em grupos de quatro chapas (isoladas duas a duas), possuem índices de isolamento similares aos das paredes de bloco de concreto de 14 centímetros de espessura, com resistência ao fogo de até duas horas.
De acordo com Mitidieri, as condições de isolação a ruídos podem ser bastante adequadas e variam em cada tipo de parede. Ao comparar, pela NBR 15.575, uma parede de geminação entre dois apartamentos, por exemplo, deve ter um
índice de redução sonora mínimo, determinado em laboratório, de 45 decibéis (Rw ³45 dB). A parede dupla de drywall, com duas chapas de gesso de 12,5 milímetros, de cada lado, num total de quatro chapas, com lã mineral no miolo, pode apresentar Rw de aproximadamente 50 decibéis. Tudo depende do uso e do desempenho exigido para cada edificação. (Por Heloisa Medeiros) .
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Data da última atualização: 16/07/2010