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Edição Especial

Na Copa, marca verde-amarela nos transportes

O Globo | 11/02/2010


Empresas brasileiras investem em novo sistema em cidades-sede dos jogos na África do Sul, com ônibus urbanos

Um dos novos ônibus, fabricados pela brasileira Marcopolo, que opera na primeira etapa de linhas de transporte público para a Copa de 2010

JOHANNESBURGO. Quem viajar à África do Sul para assistir à Copa do Mundo, de 11 de junho a 11 de julho próximos, poderá experimentar marcas brasilei­ras nos sistemas de transpor­tes das nove cidades-sede do megaevento. Os maiores avan­ços estão acontecendo em três delas que têm marca verde­-amarela. A fabricante de car­rocerias Marcopolo, por exem­plo, se associou aos produ­tores de chassis Scania e Volvo, fornecendo 211 ônibus urba­nos regulares e articulados pa­ra o transporte de passageiros em Johannesburgo, Porto Eli­zabeth e Cidade do Cabo.

Em outra parceria, desta vez com a alemã Mercedes-Benz (fa­bricante de chassis e vencedora da licitação feita pela Fifa), se­rão da brasileira Marcopolo as carrocerias dos 460 ônibus com prazos de entrega até maio para conduzir a chamada Família Fi­fa. Fazem parte as seleções dos 32 países classificados, dirigen­tes, árbitros, convidados, jor­nalistas e até empresas e pes­soas que comprarem pacotes de camarotes nos dez estádios das nove cidades da Copa. Quando a seleção do técnico Dunga descer dos aviões, as viagens por ruas e estradas se­rão em ônibus com componen­tes do Brasil.

Não é só a marca. A idéia e a concepção do sistema de transporte de passageiros da Copa também são brasileiras

Vans estacionada ao lado da Praça Nelson Mandela, em Johannesburgo

Teremos um transporte melhor. O BRT será importante nas ligações com os palcos da abertura e da final da Copa

BRT de Curitiba é opção para falta de metrô
A marca verde-amarela nas cidades da Copa vai além do fabricante de carrocerias. O sistema de transporte de pas­sageiros adotado nas três li­citações também nasceu no Brasil. O BRT (da sigla em inglês para Bus Rapid Transit) deu suas primeiras viagens em Curitiba, no fim da década de 80. Começou a se expandir pelo mundo no início deste século, como opção mais ba­rata - cerca de um quarto do preço - para os países sem condições de construir linhas de metrô.

- Não é só a marca. A idéia e a concepção do sistema de transporte de passageiros da Copa também são brasileiras - diz o diretor-executivo da Marcopolo, José Rubens de Ia Rosa. - Nós conhecemos bem o BRT porque desde Cu­ritiba, nos anos 1990, estamos presentes.

A frota de 671 ônibus comuns e de luxo da Marcopolo para a Copa do Mundo 2010 ainda po­de aumentar. A empresa disputa outra licitação para fornecer 120 veículos urbanos à prefei­tura de Pretória, a capital administrativa do país. Chegaria, então, a 791 ônibus no Mundial, sendo 331 de linhas regulares de passageiros.

Como um ônibus urbano custa entre US$ 250 mil e US$ 280 mil; um articulado, entre US$ 420 mil e US$ 450 mil; e um de luxo, entre US$ 250 mil e US$ 350 mil, o negócio pode movimentar, só na Copa, cerca de US$ 220 milhões.

Por causa da Copa, Johan­nesburgo ganhou um sistema de BRT, de ônibus articulados e com paradas obrigatórias em estações construídas em bair­ros mais pobres, como Sowe­to, e o Centro, que não dis­punham de transporte público organizado.

Das três cidades em que a Marcopolo ganhou a licitação, a única com serviço já em operação para a Copa é Johan­nesburgo. Há 143 ônibus da parceria Marcopolo (carroce­ria)/Scania (chassi) rodando desde agosto passado. São 83 articulados (duas carrocerias) e 60 regulares. No BRT, os ôni­bus regulares (75 lugares) alimentam as rotas com mais movimento (a dos articulados, com 112 lugares), como a que liga Thokoza Park, em Soweto, ao Estádio Ellis Park, palco do jogo de abertura do Brasil na Copa do Mundo, no dia 15 de junho, contra a Coréia do Nor­te. Tem 25,5km de extensão e 26 plataformas de parada.

Essa rota faz parte da fase IA do projeto (a 18 e a lC só ficarão prontas até 2013) e es­tará operando a 100% da ca­pacidade até o fim deste mês.

- É mais confortável que viajar nos táxis (vans, como são chamados na África do Sul) - diz Madala Leteane, que mora em Boomtown, na região de Soweto.

Fábrica de Duque de Caxias vendeu 400 carrocerias

As vans chegaram a ameaçar incendiar os ônibus e quebrar estações do BRT. Acusam o go¬verno de provocar o desem¬prego. São uma categoria forte, que responde por 90% do trans¬porte pago por carros em Johannesburgo. Há apenas 10% de cabs (como os táxis normais são chamados), o que faz deste último um meio de transporte caro e inacessível à população.

- Teremos um transporte melhor para a Copa do Mundo. O BRT será importante tam¬bém nas ligações com o Ellis Park e o Soccer City (palco da abertura e da final) - diz Si¬bongile Mazibuko, coordena¬dora do Projeto 2010 de Johan¬nesburgo.

De olho nesse mercado des¬de 1994, a Marcopolo tem es¬critório comercial na África do Sul e abriu, em 2000, uma fá¬brica na região de Johannes¬burgo, com 630 funcionários - 27 brasileiros, dos quais cinco executivos. Em 2009, produziu 550 ônibus. No ano da Copa, a produção prevista é de 800 unidades.

- São 60% de componentes dos ônibus da Copa produ¬zidos na África do Sul e 40% no Brasil - diz o diretor-execu¬tivo De Ia Rosa.

Na África, o BRT começou a ser implantado em Lagos, na Nigéria, para onde a Ciferal (subsidiária da Marcopolo, com fábrica em Duque de Ca¬xias) vendeu 400 carrocerias entre 2007 e 2008, com chassis Mercedes-Benz.

Licitações estão atrasadas

JOHANNESBURGO. Trans¬porte é um dos seis itens considerados de impac¬to pela Fita na organi¬zação de uma Copa do Mundo (os outros são hospedagem, estádios, aeroportos, pacotes de camarotes para empre-sas e diversão na cida¬de). O transporte dos torcedores, porém, pode ser um problema por duas razões.

A primeira é o atraso nas licitações de outras cidades. Pretória, a 58km de Johannesburgo, por exemplo, ainda está fa¬zendo a de seu BRT, com 120 ônibus. Os de Porto Elizabeth e Cidade do Ca¬bo somente entrarão em operação em maio, res¬pectivamente, com 25 e 43 ônibus da Marcopolo. As outras sedes (Durban, Nelspruit, Polokwane, Rustenburg e Bloemfon¬tein) vão apelar apenas para bolsões de estacionamento, de onde ônibus escolares e alugados levarão os torcedores até os estádios.

A segunda razão é o trânsito caótico de Johannesburgo. Como as áreas nobres e turís¬ticas da cidade (Sandton, Rosebank, Rand¬burg e Melrose) ainda não são atingidas pelo BRT Rea Vaya, o fluxo de carros deve aumentar com os 450 mil turistas previstos pela Fita.

Para complicar, o trem rápido (Gautrain), que li¬gará o Aeroporto OR Tambo a Pretória, pode nem ficar pronto no pri¬meiro trecho. até Sand¬ton (sede dos principais hotéis e do QG da Fifa) , como estava previsto.

Segundo fonte da Fifa, a previsão de entrega desse trecho para a primeira se¬mana de junho já mudou para 28 de junho, mas corre o risco de nem en¬trar em operação antes do fim do Mundial (lI de ju¬lho). Isso obrigaria os tu¬ristas a se deslocarem pa¬ra os hotéis em veículos pagos (vans e táxis).

O Gautrain só chegará a Rosebank e Pretória em 2011, o que obrigou o Ministério dos Transpor¬tes a investir em trens comuns para cobrir o trecho entre o perigoso Centro de Johannesbur¬go e Pretória, uma das rotas mais movimenta¬das do país e da Copa, já que 20 dos 64 jogos do Mundial serão disputa¬dos nas duas cidades, se¬paradas por 58km.

 

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